O ritmo dos leilões de concessões de rodovias ganhou tração no Brasil. Entre 2023 e setembro de 2025, foram realizados 17 certames, somente para vias federais. Mais cinco devem acontecer até dezembro. O setor avança também em editais regionais, com contratos assinados em Estados como São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso. Segundo especialistas, os bons ventos na infraestrutura rodoviária são resultantes de ofertas públicas baseadas em contratos que garantem maior segurança jurídica, regras transparentes e previsibilidade dos investimentos acordados.
O Ministério dos Transportes (MT) estabeleceu como meta para 2025 a realização de 15 leilões para concessões ao setor privado. De janeiro a setembro, foram feitos oito, e cinco estão agendados para até o fim do ano. A previsão é que os 13 leilões resultem em investimentos de R$ 135 bilhões e em 1,3 mil quilômetros (km) de duplicações. “Entre 2023 e setembro de 2025, foram realizados 17 leilões, com investimentos contratados de R$ 181 bilhões”, destaca a secretária nacional de transporte rodoviário da pasta, Viviane Esse. Para efeito de comparação, entre 1993 e 2022, os 29 leilões realizados somaram R$ 129 bilhões. “Ou seja, em dois anos e nove meses [de 2023 a setembro de 2025] foram contratados R$ 52 bilhões a mais do que o volume realizado em quase 30 anos”, compara.
Entre os certames finalizados em 2025 está o da BR-364/RO. O projeto será executado pela Concessionária de Rodovia Nova 364 S.A., formada pelo consórcio 4UM/Opportunity, vencedor do leilão selado em fevereiro. O contrato prevê investimentos de R$ 10,2 bilhões ao longo de 30 anos, destinados à operação, manutenção e modernização de 686,7 km – é a primeira concessão federal de rodovia em Rondônia. O trecho concedido liga Porto Velho a Vilhena, na divisa com o Mato Grosso. A BR-364/RO é considerada peça-chave para a logística regional, conectando portos e corredores logísticos de Rondônia, Amapá, Amazonas, Pará e Maranhão, segundo o MT.
Já entre os leilões agendados para novembro de 2025 está o do sistema rodoviário BR-153/262/GO/MG, conhecido como Rota Sertaneja. Prevê a concessão de 530,6 km e os trechos a serem entregues ao setor privado incluem a BR-153/GO, de Hidrolândia até Itumbiara (GO), na divisa com Minas Gerais; a BR-153/MG, entre Araporã (MG) e Fronteira (GO), na divisa com São Paulo; e a BR-262/MG, de Uberaba a Comendador Gomes (MG). Com R$ 10 bilhões em investimentos, a modelagem inclui mais de 42 km de duplicação, além de vias marginais e passagens de fauna.
Esse, do MT, defende que a carteira de concessões do governo federal tem se mostrado atrativa aos investidores, com oportunidades que alcançarão R$ 247 bilhões em 22 projetos leiloados entre 2023 e 2025. “Houve aperfeiçoamento dos instrumentos regulatórios, incluindo mecanismos de mitigação de riscos, padronização de estudos e modelo de gestão por incentivos”, diz. As mudanças foram definidas na nova política de outorgas, publicada em 2023, e têm desidratado o valor das iniciativas em que o governo paga, sozinho, a conta das obras.
Somente na carteira de projetos públicos, sem participação da iniciativa privada, foram executados R$ 25,2 bilhões em obras rodoviárias federais, entre 2023 e 2024. Para 2025, conforme estipulado na Lei Orçamentária Anual (LOA), estão previstos R$ 15,8 bilhões em investimentos, na ampliação e manutenção da malha rodoviária federal, acrescenta a secretária.
Entre as obras entregues está o trecho de 22,5 km de novas faixas na BR-235/BA, que faz a conexão entre os municípios baianos de Campo Alegre de Lourdes, grande produtor de mel na região Nordeste, e Remanso. Com 2,2 mil km de extensão, a BR-235 garante a ligação entre o Pará, Tocantins, Maranhão, Piauí, Pernambuco, Sergipe e Bahia.
Na avaliação de Ronei Glanzmann, CEO do MoveInfra, movimento que reúne os seis principais grupos de infraestrutura do país, como Motiva e EcoRodovias, o Brasil nunca teve uma agenda tão extensa de leilões. “Isso é reflexo da maturidade regulatória e da confiabilidade da população em relação às rodovias concedidas”, analisa.
Glanzmann acredita no interesse crescente das concessionárias em novos projetos. “O setor privado ainda tem muito apetite para participar dos certames, mas para isso é necessário mais segurança jurídica, com regras transparentes no processo”, observa. “A atuação das agências reguladoras é fundamental, pois garante a fiscalização dos serviços e a previsibilidade dos investimentos. Para ele, entre os principais desafios do setor estarão questões ligadas ao licenciamento ambiental. “O tema está em discussão no Congresso Nacional, com o envolvimento do setor privado, para chegarmos a um acordo que beneficie empresas e o meio ambiente.”
Para Roberto Borges, vice-presidente técnico da EcoRodovias, operadora de malha rodoviária que administra 12 concessões de rodovias em oito Estados, somando 4,8 mil km, há espaço para que os leilões continuem cada vez mais atrativos. “É central trazer mais garantias de financiamento para os projetos, além de flexibilidade para contratos de longo prazo, com mecanismos que permitam a incorporação de novas tecnologias e a atualização dos investimentos frente a mudanças de prioridades”, afirma.
De 2023 até o primeiro semestre de 2025, a empresa investiu R$ 10,7 bilhões em obras. Nos últimos quatro anos, conquistou quatro novos ativos, que aumentaram em 2,2 mil km o portfólio de operações, com as concessionárias Ecovias Araguaia, criada em 2021, Ecovias Rio Minas e Ecovias Noroeste Paulista (2022) e Ecovias Raposo Castello (2025).
“Nos quatro leilões, assumimos o compromisso de investir cerca de R$ 37 bilhões ao longo dos contratos”, diz Borges, acrescentado que há obras em praticamente todas as concessões. Uma delas garante a ampliação da rodovia Presidente Dutra (BR-116) no trecho fluminense, entre os municípios de Irajá e Seropédica, com R$ 997 milhões em investimentos. “Até 2031, devemos executar [na malha viária do país] 474 km de duplicações, 394 km de faixas adicionais e 189 km de vias marginais.”
Outros grupos de infraestrutura de mobilidade estão escalando planos de investimentos. Neste segundo semestre, a Motiva reforçou um pipeline de R$ 160 bilhões em novas oportunidades, sendo R$ 100 bilhões apenas para rodovias. Nas concessões, a empresa, que administra 4,4 mil km de rodovias, prioriza ativos em regiões estratégicas, expostos a grandes centros urbanos, além de eixos logísticos e conexões com o agronegócio.
Em setembro, a Arteris ViaPaulista deu início à duplicação de mais 57 km da rodovia SP-255. O trecho está entre os km 180 e 237 da Rodovia Deputado João Lázaro de Almeida Prado/Rodovia João Mellão e passa por seis municípios, como Botucatu e Avaré, no sudoeste de São Paulo. O aporte estimado é de R$ 330,7 milhões.
No início de outubro, a Infra BR, do grupo Pátria, venceu o leilão da concessão rodoviária paulista Lote Paranapanema. O contrato estadual tem investimento estimado em R$ 5,8 bilhões em 30 anos e prevê obras para ampliar a segurança viária em trechos da Raposo Tavares e rodovias complementares.
Apesar dos projetos em série, Tatiana Gruenbaum, sócia-diretora-líder de infraestrutura da KPMG Brasil, afirma que ainda há muito trabalho a ser feito na modernização do mapa rodoviário nacional. “De uma malha de mais de 1,7 milhão de quilômetros, pouco mais de 200 mil são pavimentados”, diz ela, baseada em pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT).
Nos últimos anos, o país viu uma evolução nas modelagens [dos leilões] e na qualidade de projetos em disputa, anota. “Isso tem estimulado as concessionárias a avaliar novos projetos, com estruturação de capital, garantias e seguros.”
Sobre os próximos leilões, Gruenbaum chama a atenção para a atratividade de alguns certames, como os lotes 4 e 5 do Paraná (marcados para 23 e 30 de outubro), com artérias entre São Paulo, Mato Grosso do Sul e o Paraguai. “Incluem um trecho da BR-369, considerado um corredor de escoamento da agropecuária e da indústria da região”, destaca.
Na visão de Paulo Resende, coordenador do Núcleo de Infraestrutura, Supply Chain e Logística da Fundação Dom Cabral, a aceleração nas concessões estaduais é bem-vinda para o equilíbrio da infraestrutura nacional. “Um dos destaques é o Estado do Mato Grosso”, aponta. O investimento previsto em quatro lotes leiloados pelo governo estadual em março, que totalizam mais de 1,3 mil km, é de R$ 4,7 bilhões.
A estimativa de Resende é que as concessionárias continuem incrementando a carteira de rodovias nos próximos leilões. “Não só as concessionárias existentes vão aumentar o número de ativos, como também novos entrantes estão participando desse mercado”, assinala. Em 2024, o grupo francês Vinci venceu o leilão da BR-040, conhecida como Rota dos Cristais, entre Cristalina (GO) e Belo Horizonte (MG). Um ano antes, o governo de Minas Gerais assinou a concessão do rodoanel da região metropolitana da capital mineira com a italiana INC SpA. “O ingresso de novos atores internacionais e consórcios nacionais é fundamental para que o setor não fique concentrado em poucas empresas”, diz o especialista.
Fonte: Valor Econômico – Por Jacilio Saraiva – 31/10/2025