No primeiro trimestre deste ano, as vendas de cimento somaram 15,9 milhões de toneladas, um crescimento de 1,8% sobre o mesmo período de 2025, segundo o Sindicato Nacional da Indústria do Cimento (Snic).
Nos últimos 12 meses, o aumento é de 2,5%, com 67,2 milhões de toneladas vendidas.
Março também trouxe resultado positivo, com 5,8 milhões de toneladas comercializadas, o maior volume para o mês desde o início da série histórica do Snic, nos anos 1950, aponta o presidente da entidade, Paulo Camillo Penna. É também um aumento de 9,1% sobre março de 2025.
As vendas por dia útil somaram 241,2 mil toneladas em março, queda de 2,3% sobre março de 2025 e de 1,2% ante fevereiro deste ano.
Por região
No trimestre, houve queda de 2,8% nas vendas na região Sudeste. De acordo com Penna, um verão mais chuvoso foi o causador dessa queda.
Já o Nordeste apresentou alta de 10% nas vendas. No Norte, o crescimento foi de 7,4%. Nesse caso, é um programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) mais forte que tem puxado a comercialização, analisa.
O Sul fechou março com alta de 3,3% nas vendas e o Centro-Oeste, com leve aumento de 0,7%.
Aumento de custos
Apesar dos dados positivos, Penna enumera motivos de preocupação para o setor e afirma não ser possível cravar a previsão de crescimento de 1,8% para 2026, que a entidade havia divulgado. Há expectativa, ainda assim, de um crescimento entre 1% e 2%, após a alta de 3,7% em 2025.
O fator de atenção mais recente é o aumento do preço do petróleo, causado pela guerra no Irã. Há um cessar-fogo, mas o cenário ainda segue instável.
O Snic calcula um incremento de 13% nos custos de produção por causa da alta do petróleo. O cimento é impactado pelo aumento do frete rodoviário e marítimo e também pelo coque, subproduto do petróleo usado nos fornos das cimenteiras e que representa 40% do custo de produção do material.
O efeito no custo total só não é pior porque o setor já usa 30% de combustível alternativo em seus fornos, vindo de biomassa, pneus descartados e lixo, por exemplo.
O presidente do Snic lembra que dois terços do cimento no país é vendido ensacado, no varejo, afetado pelo endividamento das famílias, que atingiu 81,4 milhões de pessoas inadimplentes em fevereiro, de acordo com o Serasa. “Tem impacto efetivo nas nossas vendas”, afirma.
No entanto, a possível liberação de R$ 7 bilhões do FGTS para uso na quitação de dívidas, aventada nesta semana pelo ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, deixa o sindicato “preocupado”. Isso porque o fundo é o maior originador de recursos para o programa Minha Casa, Minha Vida, que já responde por 52% dos lançamentos imobiliários no país e uma das maiores fontes de consumo de cimento.
Há receio de que esse uso do FGTS comprometa o programa. Para o setor de cimento, seria ajudar de um lado, reduzindo a dívida das famílias, mas tirar de outro, se afetar o programa habitacional.
Uma mudança na escala de trabalho 6×1 também levaria a acréscimo de custo no setor, segundo o Snic, de 15%, ao se levar em conta um limite de 40 horas semanais de trabalho. “Essa discussão está sendo feita em período político errado, pré-eleitoral. Vai ser difícil, em uma votação, o candidato votar contra”, critica Penna.
Para a entidade, esses pontos ofuscam dados positivos da economia, como o aumento da massa salarial e o bom desempenho do MCMV, que vem batendo recordes de contratação.
Capacidade ociosa
O Snic recalculou a capacidade produtiva de cimento do país e a elevou de 94 milhões para 109,3 milhões de toneladas. Desse total, há 38,5% de capacidade ociosa, atualmente. Pelo lado bom, afirma Penna, há “disponibilidade bastante grande” para crescimento da produção, se houver demanda.
A entidade aguarda, para este ano, uma retomada do incentivo fiscal da depreciação acelerada, que permite deduzir custos com máquinas e equipamentos. Desde 2024, já resultou em R$ 6,3 bilhões em investimentos em máquinas e equipamentos, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI). As cimenteiras foram beneficiadas com R$ 125 milhões do programa, e Penna espera um valor ainda maior.
Segundo ele, os recursos podem ser investidos em maquinário que promova mais uso de combustível alternativo e menor pegada de carbono para a indústria do cimento.
Fonte: Valor Econômico — Por Ana Luiza Tieghi, Valor — São Paulo, 09/04/2026