Guerra do Irã impacta construção civil e paralisa projetos em vários países

Projetos de construção estão sendo paralisados em todo o mundo à medida que o fechamento do estreito de Hormuz, por onde passa 20% da produção mundial de petróleo e gás, interrompe o fornecimento de materiais essenciais e eleva os preços de produtos derivados de petróleo, como tintas e isolamento térmico.

A indústria da construção é um pilar do crescimento econômico, contribuindo com cerca de 13% do PIB (Produto Interno Bruto) global, mas construtoras afirmam que a restrição no fornecimento de petróleo do Oriente Médio está atrasando vários empreendimentos no mundo.

Masatomi Maeda, presidente da japonesa Maeda Housing, disse que cerca de um quarto de seus projetos foram adiados em abril porque fornecedores não conseguiram confirmar datas de entrega de produtos como tubulação de PVC, materiais de isolamento e banheiros pré-fabricados.

Construtoras afirmam que a falta de uma única peça, adesivo ou material é suficiente para paralisar um projeto inteiro.

“Temos cerca de 20 projetos contratados nos quais não conseguimos iniciar o trabalho normalmente”

Masatomi Maeda

presidente da Maeda Housing

“Já esperamos que os pagamentos de conclusão sejam adiados em dois ou três meses. Se dois meses de vendas desaparecerem, acho que haverá empresas que não terão capital de giro suficiente”, avaliou Maeda.

Construtoras fazem uso elevado de materiais derivados de petróleo que foram impactados pelo fechamento do estreito de Hormuz.

Os produtos afetados —como asfalto, isolamento, iluminação, equipamentos de aquecimento e ventilação, plásticos e tintas— já subiram acentuadamente de preço. Ao mesmo tempo, os custos mais altos de energia industrial estão elevando o valor pago por aço, concreto, cimento, cerâmicas e tijolos.

Algumas das maiores incorporadoras imobiliárias da Índia foram atingidas. Abhishek Lodha, que dirige a Lodha Developers, comentou recentemente que os custos de construção subiram cerca de 5% desde o início da guerra.

Na Austrália, a crise na cadeia de suprimentos ameaça inviabilizar a promessa do governo de construir 1,2 milhão de novas casas até 2029, com alguns incorporadores alertando que o aumento nos custos pode adicionar até 50 mil dólares australianos (R$ 182,18 mil) ao custo de construção de uma nova casa.

Maior fornecedora de equipamentos hidráulicos da Austrália, a Reece alertou seus clientes em março que a interrupção a forçaria a repassar os custos aos clientes. A empresa comunicou que o preço dos tubos de polietileno de alta densidade usados em infraestrutura civil subiria 36% e o preço dos tubos de PVC usados em encanamento residencial aumentaria 28,5%.

Na semana passada, o índice de gerentes de compras do Reino Unido para construção mostrou a queda mais acentuada em cinco meses, após os custos de insumos subirem no maior ritmo em três décadas, excluindo o pico que ocorreu na pandemia.

Noble Francis, diretor de economia da Construction Products Association (CPA), declarou que algumas empreiteiras britânicas foram alertadas sobre aumentos de preços de 10% a 30% nos próximos três meses. A CPA espera um aumento nas insolvências de empreiteiras nos próximos 12 meses.

Grandes aumentos de preços já são realidade no Japão. Yoshihide Kimura, diretor-executivo da empreiteira Tomiso, afirmou que e-mails em massa no mês passado notificando-o de aumentos “extraordinários”. Os preços do PVC, por exemplo, saltaram até 70%, relatou o CEO.

Kimura disse que sua empresa não conseguia repassar os custos aos clientes, pois eles precisariam renegociar financiamentos imobiliários, e a incerteza estava fazendo os clientes recuarem. “Todo mundo se sente travado”, comentou.

 

 

Fonte: Folha de S.Paulo — Por Harry Dempsey, Gill Plimmer e Nic Fildes Debora Leite, Valor — Tóquio, Londres e Sydney (Austrália) | Financial Times, 13/05/2026

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