A construção civil é o único dos cinco grandes setores a ampliar o saldo de empregos formais em 2026, em meio à desaceleração do mercado de trabalho formal. No acumulado até agosto, o saldo do setor cresceu 2,7% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o comércio registrou a maior queda, de 94,2%, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).
A construção registrou saldo positivo de 200,4 mil vagas nos oito primeiros meses do ano, acima das 195,2 mil contabilizadas no mesmo período de 2025. Dentro do setor, as obras de infraestrutura ajudam a explicar essa resistência, com saldo positivo de 79 mil vagas no período, alta de 26,9% em relação a 2025. Em contrapartida, o saldo de empregos na construção de edifícios recuou 11,7%.
Na avaliação de Rodolpho Tobler, economista do FGV Ibre, o aumento dos investimentos públicos em obras de infraestrutura em anos eleitorais favorece as contratações no segmento. Ele explica que a construção civil também costuma demorar mais para sentir os efeitos da desaceleração, devido ao ciclo mais longo das obras e dos investimentos, e que parte da atividade é sustentada por projetos contratados meses ou até anos antes.
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Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, aponta também que, em um momento de mercado de trabalho aquecido, oferecer emprego formal com carteira assinada funciona como um atrativo em um setor no qual grande parte dos trabalhadores está na informalidade. Segundo ele, a taxa de informalidade na construção de edifícios estava em 72,6% em junho de 2026.
Os economistas apontam ainda o Minha Casa, Minha Vida (MCMV) como um fator que vem sustentando as contratações no setor. Imaizumi projeta que a construção civil deve ser o único setor a registrar um saldo de vagas em 2026 maior do que em 2025, sustentado principalmente pelo programa habitacional.
Para Tobler, porém, a transição para 2027 deve ser mais desafiadora para o setor. Ele considera que as obras de infraestrutura tendem a diminuir, já que, nos primeiros anos de governo, é comum uma contenção de investimentos e ajustes nas contas públicas, tanto no âmbito federal quanto no estadual.
Já no comércio, o movimento foi o oposto: o setor registrou a maior redução no saldo de empregos formais, com 9,3 mil vagas criadas de janeiro a agosto deste ano, ante 161,6 mil no mesmo período de 2025. Dentro do setor, o comércio varejista concentra a maior retração neste ano, com um saldo negativo de 41.218 vagas.
Tobler atribui a perda de fôlego do comércio à desaceleração econômica e ao comprometimento da renda das famílias. Ele explica também que as varejistas enfrentam a concorrência de produtos importados da China e os efeitos dos juros elevados. Com o orçamento pressionado pelo endividamento, as famílias tendem ainda a reduzir compras de maior valor, afirma.
“A renda tem ficado mais estável, e a gente tem visto que as famílias continuam muito endividadas e inadimplentes. À medida que a renda não vai subindo e as contas vão se apertando, as dívidas vão crescendo, porque os juros também continuam muito altos. O ímpeto de consumo vai ficando cada vez menor”, explica Tobler.
Além disso, Imaizumi cita questões estruturais que afetam o comércio, como o avanço do e-commerce, que transfere parte das vagas para atividades de serviços, como armazenagem, logística e transporte. O economista destaca ainda a forte perda no saldo de vagas no comércio de eletrônicos (-11,4 mil), segmento que depende mais das compras parceladas.
“O fim da taxa das blusinhas inibe o avanço de vagas formais no setor, principalmente no vestuário (-32,6 mil). O avanço das bets também. A gente vê estudos mostrando que os principais itens que os apostadores deixaram de consumir estão ligados ao vestuário. Então, consequentemente, isso acaba afetando também o consumo e as vagas geradas no setor”, diz Imaizumi.
A Black Friday, o Natal, o Réveillon e as férias de verão, que costumam estimular o consumo, podem contribuir para elevar o saldo de empregos no comércio nos próximos meses, na avaliação de Tobler. Ele afirma, porém, que o movimento deve se concentrar principalmente em vagas temporárias e que, na comparação com o mesmo período do ano passado, o resultado ainda tende a ser mais fraco.
“Eu tenho entendido que a gente vai ter um fim de ano um pouco mais fraco do que no ano passado. Por mais que a gente tenha algum estímulo nesta época do ano, ele tende ainda a ser um pouco mais fraco do que a gente viu nos últimos anos, porque de fato a gente tá vendo essa desaceleração do consumo”, afirma.
A perda de ritmo também afeta outros três setores. A indústria teve uma queda de 37,9%, passando de 274,3 mil para 170,4 mil postos criados no período. Na agropecuária, o saldo caiu 48,4%, de 108,5 mil para 56 mil vagas. Já os serviços, maior empregador entre os grandes setores, registraram saldo de 697,9 mil postos até agosto, abaixo dos 777,3 mil contabilizados um ano antes, uma redução de 10,2%.
Para Tobler, o mercado de trabalho entrou em uma fase de estabilidade após o desempenho mais forte de 2025. “A gente tem visto o mercado de trabalho andando um pouco mais de lado, não vemos mais aquela melhora acentuada, como a gente viu até o ano passado. É claro que ainda é um mercado aquecido, a gente está com uma taxa de desemprego baixa, mas o cenário de 2026 parece muito mais estável do que realmente um aumento”, afirma.
Fonte: Valor Econômico — Por Grace Vasconcelos — De São Paulo, 26/10/2026