Contratos de R$ 68 mi para evitar atrasos indicam que obras da COP30 podem se arrastar até 2027

Os contratos assinados pelo Governo do Pará para a supervisão dos prazos das obras da COP30 (conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas) indicam que as intervenções previstas devem se arrastar até 2027. A COP30 será realizada em Belém em novembro.

A gestão do governador Helder Barbalho (MDB) assinou dois contratos com empresas de engenharia, no valor total de R$ 68 milhões, para gerenciamento, supervisão e fiscalização das obras associadas à cúpula climática. Uma das atribuições dessas empresas é garantir a finalização das obras sem atrasos.

Os próprios contratos, porém, indicam que empreendimentos previstos devem ficar para depois do evento da ONU.

Um contrato diz respeito à supervisão de obras pagas com financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O banco financia intervenções em Belém –principalmente drenagem de canais e saneamento básico– com valores que superam R$ 1 bilhão.

O outro contrato tem a atribuição de fiscalização de obras custeadas com dinheiro de Itaipu Binacional. São parques e pavimentação de avenidas, entre outros empreendimentos. Itaipu assinou convênios para investimento de R$ 1,3 bilhão em intervenções em Belém, com foco na COP30.

A contratação relacionada à fiscalização de obras pagas pelo BNDES tem um valor de R$ 28,5 milhões e estabeleceu um prazo de 24 meses para execução dos trabalhos, contados a partir da emissão da ordem de serviço. O contrato começou a valer em novembro de 2024. O prazo de dois anos vai pelo menos até novembro de 2026, um ano após a realização da COP30.

No caso do contrato relacionado a Itaipu, com valor de R$ 39,7 milhões, o prazo para execução de serviços é de 26 meses –até janeiro de 2027. Nos dois casos, a vigência do contrato é ainda maior, até novembro de 2027.

Os documentos usados como referência para os contratos apontam a necessidade de supervisão de nove conjuntos de obras no caso do pacote financiado pelo BNDES e de oito ruas e avenidas cujas obras contam com dinheiro de Itaipu.

Em nota, o Governo do Pará afirmou que as obras em execução para a COP30 estão seguindo o cronograma estabelecido.

“Os prazos dos contratos de gerenciamento das obras financiadas pelo BNDES e por Itaipu Binacional são de 24 e 26 meses”, disse a Seop (Secretaria Estadual de Obras Públicas). “A vigência contratual se estende por mais 12 meses exclusivamente para fins de prestações de contas jurídicas, administrativas e contábeis, além do acompanhamento pós-obra.”

O BNDES afirmou que os projetos de infraestrutura e saneamento beneficiam 500 mil pessoas –Belém tem 1,3 milhão de moradores– e que os empreendimentos são um legado para a população. “Essa carteira de projetos, por seu porte e complexidade, possui cronograma de execução para além da conferência”, disse o banco, em nota.

Obras de saneamento em Belém para a COP30

O contrato assinado entre o BNDES e o Governo do Pará, para abertura de créditos ao estado no valor de R$ 1,5 bilhão, tem um prazo de quatro anos, contados a partir de junho de 2024, data de assinatura do instrumento que permite os financiamentos, liberados a partir de uma análise dos projetos previstos.

“No que se refere à formulação dos editais de licitação e à celebração dos contratos administrativos pelo estado do Pará para a execução dos investimentos, compete às unidades técnicas e jurídicas do estado o estabelecimento de requisitos para quantificação e especificação dos serviços”, cita a nota.

Itaipu, por sua vez, disse desconhecer o escopo do contrato relacionado à supervisão das obras. A contratação de um consórcio de empresas para fiscalização das obras da COP30 não integra a lista de convênios assinados, afirmou a usina binacional.

“Todas as obras para a COP30 estão sendo realizadas dentro de um cronograma de entrega em tempo hábil para a realização do evento”, disse Itaipu, em nota. “Itaipu acompanha e fiscaliza os convênios firmados pela empresa, e o cumprimento dos prazos acordados.”

Um documento protocolado pelo consórcio vencedor de um dos contratos, durante o processo de licitação, já indicava atrasos em obras da COP30.

O documento apontou, por exemplo, perspectiva de conclusão das obras no canal Benguí em novembro de 2024. A fase de dragagem no rio Murutucu terminaria em dezembro do ano passado, segundo esse levantamento apresentado pelo consórcio de empresas.

Folha esteve em fevereiro em diferentes canais de Belém que estão em obras –como Benguí e Murutucu– e constatou que as obras prosseguem, com atrasos, segundo moradores e trabalhadores.

Em alguns casos, o ritmo das obras estava muito lento, como na região dos canais Benguí e Marambaia.

As obras de infraestrutura eram visíveis apenas nas partes próximas aos condomínios de casas existentes na região. Na área mais favelizada, os moradores relataram que o empreendimento caminhava a passos lentos. O esgoto continuava sendo lançado diretamente no canal Benguí.

As redes de esgoto já foram instaladas nas margens dos canais, e uma estação elevatória destinará os dejetos para tratamento, afirmou a gestão do Pará.

Em Belém, segundo os indicadores mais recentes, 80% dos moradores não são atendidos por coleta de esgoto. Mais da metade das pessoas vive em áreas favelizadas, o que coloca Belém como a capital com mais moradores vivendo em favelas no país, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Os governos federal e estadual decidiram, então, contemplar obras de saneamento e drenagem no rol de iniciativas voltadas à COP30, como um legado da conferência à população da cidade.

 

Fonte: Folha de São Paulo – Por Vinicius Sassine  – 24/04/2025

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