Construção civil teme impacto das tarifas de Trump sobre o PIB

A construção civil pode sofrer impactos macroeconômicos das tarifas de 50% à exportação de produtos brasileiros aos Estados Unidos, afirmou nesta segunda-feira (28), o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), Renato Correia, em entrevista coletiva.

Pode haver, inclusive, uma queda momentânea no preço de alguns materiais, mas um possível aumento do dólar também pode inverter essa tendência, disse.

A maior preocupação é sobre o impacto que a medida, prevista para entregar em vigor na sexta-feira (1º) pode ter sobre o PIB nacional. “Nossa dinâmica existe tendo funding de financiamento e pessoas empregadas, tendo PIB”, afirmou, acrescentando que ainda não se sabe o “real impacto” que as tarifas podem ter.

O setor passa por momento positivo do ponto de vista operacional, mas com perspectivas de desaceleração, motivadas pela taxa de juros e pela incerteza com a economia.

De janeiro a maio, foram geradas 149,2 mil vagas de empregos formais na construção, patamar pouco maior do que em 2023, mas menor do que as quase 160 mil vagas do mesmo período de 2024.

A taxa de juros, de 15% ao ano, foi apontada por empresários do setor como o principal desafio que enfrentam no momento.

Financiamento à construção

Um dos reflexos dos juros tem sido um menor direcionamento dos recursos da caderneta de poupança para o financiamento das obras — os bancos têm reservado esse recurso, que em tempos de juros altos pode se tornar escasso, para financiar o comprador do imóvel.

O número de unidades que tiveram a construção financiada com recursos da poupança caiu 63% de janeiro a maio deste ano, ante o mesmo período de 2024, de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), apresentados pela Cbic. Em reais, a queda no volume financiado foi de 54%.

O Banco Central está estudando um novo modelo de financiamento para o setor, em conversas com as entidades que representam o mercado imobiliário. Correia afirma que a entidade defende, primeiro, a liberação de 5% do compulsório da poupança, como forma de aliviar a falta de recursos de maneira mais imediata. Os bancos precisam reter 20% dos recursos da poupança e mantê-lo depositado no Banco Central. Entidades da construção pedem que um quarto disso seja liberado, para que, então, o novo modelo comece a ser testado, de forma lenta.

“Em vez de mudar de maneira rápida e plena, [defendemos] que a gente vá experimentando, para fazer a transição de forma correta e assertiva”, disse.

Menos imóveis usados

Um dado positivo para o setor da construção, de janeiro a maio, foi o número de unidades usadas financiadas com recursos do FGTS, que caiu 44,4% de um ano para o outro.

Com essa queda, sobra mais recurso para o financiamento de novas obras, como as do Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que são bancadas pelo fundo — o número de unidades novas financiadas pelo FGTS cresceu 10,6% até maio deste ano.

Medidas para frear a concessão de recursos para os imóveis usados foram anunciadas pelo Ministério das Cidades no ano passado, como um teto menor de preço para o imóvel usado que pode ser vendido dentro do programa e uma redução na parcela do valor do imóvel que pode ser financiada. “A alteração surtiu efeito, o que coaduna com o que pensamos em termos de retroalimentação do FGTS pela geração de empregos”, disse Correia.

PIB do setor

A Cbic manteve sua projeção do crescimento do PIB da construção para 2025, de 2,3%. Em 2024, o aumento foi de 4,3%.

Fonte: Valor Econômico – Por Ana Luiza Tieghi, Valor — São Paulo, 28/07/2025

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