Construção e serviços são os mais afetados pelo fim da escala 6×1 e falam em alta de custos

Da construção civil ao varejo, vários setores da economia já fazem as contas do fim da escala 6×1 aprovada pelo Senado na noite desta quarta-feira (14). Para a construção civil, intensiva em mão de obra, o fim do 6×1 é um “fantasma que assombra” as construtoras. O setor de saúde estima um impacto entre R$ 7 bilhões e R$ 12 bilhões, por ano, com a mudança. E bares e restaurantes calculam aumento de até 20% nos gastos com funcionários. No varejo, a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas elevaria em 10% o custo salarial por hora trabalhada, sem considerar novas contratações, segundo a consultoria AGR.

Ely Wertheim, presidente do Secovi-SP, sindicato do setor imobiliário, afirma que os trabalhadores dos canteiros terão perda de salário, porque são contratados por empreiteiras que remuneram com base na produtividade. “Na medida em que esse trabalhador não trabalhe em determinado dia, ele vai produzir menos e, assim como vendedor de loja, não vai ganhar a comissão”, afirma.

O presidente da Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz França, defendeu que “esse não é o melhor momento para avançar uma matéria complexa” e que “qualquer mudança deve ser gradual e considerar especificidades do setor”.

Empresários e executivos que atuam na incorporação imobiliária reclamam, há meses, de dificuldade para contratar funcionários e manter a equipe necessária para as obras, com relatos de atrasos na entrega dos projetos por falta de pessoal capacitado. Segundo eles, a mudança de escala exigiria mais trabalhadores, o que pioraria esse cenário. “Não dá para falar ‘contrata mais gente’, não tem mais gente para trabalhar”, afirma Wertheim.

A Abrainc se ampara em uma pesquisa, encomendada à consultoria econômica especializada em construção Econnit, que aponta que a redução da jornada de 44 para 40 horas eleva o custo total de uma obra em 5,5%, em relação ao total do valor geral de vendas (VGV) do projeto. O estudo destaca que a mão de obra responde por 40% dos custos da construção civil, enquanto representa 15% dos custos da indústria geral.

Nos bares e restaurantes, o aumento de custos não vai se restringir às empresas que ainda adotam a escala 6×1. Segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), os estabelecimentos do setor que já trabalham com 40 horas semanais terão aumento de custo de 9,1%. A entidade defende a aprovação, no início do próximo ano, da PEC do trabalho flexível, que permite a contratação por hora e em jornada móvel.

Supermercados, farmácias e lojas de shopping precisam manter o atendimento seis ou sete dias por semana, independentemente da escala dos funcionários. Por isso, afirma Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores, as redes terão de redesenhar turnos, rever processos, investir em tecnologia e, em muitos casos, ampliar o quadro. Para a consultora, as empresas menores terão mais dificuldade para absorver o custo.

“O varejo é bem exposto por ser um modelo intensivo em capital humano”, afirma Luiz Guanais, analista de varejo e consumo do BTG Pactual. Segundo ele, farmácias e supermercados são os segmentos mais expostos entre as empresas acompanhadas pelo banco, porque operam com margens mais baixas e têm a despesa com pessoal mais alta.

Já para os estabelecimentos de saúde, em especial os hospitais, o principal problema é que o modelo atual vigente é de 12 horas trabalhadas para 36 de descanso. “Nosso setor trabalha em outro formato. Os hospitais funcionam 24 horas, sete dias por semana. Pedimos um regime especial para o setor e acredito que será aceito”, disse Francisco Balestrin, presidente do SindiHosp e FeSaúde, federação dos hospitais, clínicas e laboratórios.

“Cerca de 70% do pessoal na área da saúde é do assistencial, que trabalha por escala 12 por 36. É preciso ter uma regulamentação especial”, complementou Antonio Britto, diretor executivo da Anahp, associação dos hospitais privados.

Para o Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma) a medida aumenta a pressão inflacionária e pode provocar a redução de descontos em produtos vendidos ao consumidor. “A desculpa é sempre falar ‘não é inflacionário porque o 13º salário e um terço de férias quando foram criados não foram inflacionários’. Mas nessas épocas, tínhamos inflação de 80% ao mês. Ou seja, quando tínhamos uma variação de 6% na inflação, isso se diluía dentro da grande inflação que se tinha no país. Agora, com uma inflação de cerca de 5% e pressão inflacionária crescente, vamos ter impacto sim”, disse Nelson Mussolini, presidente da entidade.

Fonte: Valor Econômico — Por Michael Esquer, Beth Koike, Vitória Nascimento e Ana Luiz Tieghi — De São Paulo, 15/10/2026