Falta de mão de obra e custo pressionam construção

No momento em que o país vive a mais baixa taxa de desemprego já registrada – 5,6% no trimestre móvel até agosto, segundo o IBGE -, a construção civil tem enfrentado dificuldade para contratar. Mesmo com aumento da média salarial do setor para níveis recordes e acima de outros segmentos da economia, a construção tem se mostrado pouco atrativa para os trabalhadores. Embora o saldo de contratações tenha sido positivo, agosto registrou o pior resultado para o mês desde 2021.

O cenário indica desaceleração da atividade na construção – agravada por juros elevados e crédito mais caro – e pressão sobre a inflação. Os salários têm alto peso nos custos do setor e devem puxar os preços da construção, apontam economistas.

De acordo com o relatório de outubro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), antecipado com exclusividade ao Valor, em agosto, o saldo líquido de empregos formais na construção chegou a 17,3 mil, o segundo pior resultado entre 2021 e 2025. Embora o número revele alta de 25,5% em relação a agosto de 2024, é 51,8% menor do que o registrado em 2022, de 35,9 mil empregos.

O dado de janeiro a agosto de 2025 é ainda pior, com queda de 9,4% no saldo de empregos em relação ao mesmo período de 2024, um total de 194,5 mil postos formais. O resultado é o pior desde janeiro de 2021. Em relação a 2023, a queda das contratações na construção foi de 12,6%.

Os números da construção civil, tanto em agosto quanto no acumulado dos oito primeiros meses do ano, refletem o comportamento do mercado de trabalho formal no país. As contratações formais de todos os setores caíram 38,4% em agosto de 2025 ante o mesmo mês de 2024, registrando o pior resultado para o período desde 2020. De janeiro a agosto, o saldo de empregos formais somou cerca de 1,5 milhão de vagas, queda de 13,8% em relação ao mesmo intervalo de 2024, quando foi criado 1,74 milhão de postos.

Na avaliação da economista e pesquisadora do Ibre Janaína Feijó, o setor tem um comportamento que mostra certa resiliência, por manter saldos entre demissões e contratações positivos, ao mesmo tempo em que enfrenta “desaceleração persistente”, de caráter mais estrutural do que conjuntural – movimento que ameaça segmentos dependentes de expansão física, inovação tecnológica e modernização.

A dificuldade em contratar não está no salário, mas no desinteresse pela atividade – especialmente entre jovens. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP), Antonio de Souza Ramalho, considera que há “preconceito” das novas gerações, por ser atividade braçal e pesada.

Em agosto, o salário médio da construção chegou a R$ 2.462,70 em São Paulo, o mais alto entre todos os segmentos da economia, atesta o Ibre. Para as empreiteiras, pagar mais é a única forma de manter equipes, mas o repasse dos custos eleva o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) e, mais adiante, os preços ao consumidor. Se o aumento salarial persistir sem melhora da produtividade, o problema pode se agravar no médio prazo.

“Hoje o salário é atrativo, mas a maioria dos jovens não quer ir para a construção pelo preconceito com o peão de obra”, defende Ramalho. O piso do pedreiro está em torno de R$ 2,6 mil, mas o setor discute novas nomenclaturas profissionais para valorizar a carreira.

A falta de profissionais é mais acentuada nas áreas menos industrializadas, como a de ajudantes de pedreiro, ressalta o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Yorki Estefan. Esforço físico e o baixo grau de mecanização tornam a reposição de mão de obra mais difícil. Para Estefan, o desafio é convencer quem busca emprego de que é possível construir uma carreira no setor.

Outras duas queixas das empresas é o aumento do custo da mão de obra, que subiu cerca de 10% nos últimos anos, segundo o Sinduscon-SP, e o juro alto. Segundo o vice-presidente de Relações Trabalhistas da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Ricardo Dias Michelon, a construção é mais sensível à taxa de juros e às incertezas políticas e macroeconômicas, o que afeta diretamente o índice de confiança. Na sondagem do Ibre, o Índice de Confiança da Construção (ICST) recuou 1,1 ponto em agosto, para 91,6 – o menor nível desde maio de 2021.

Para Michelon, as incertezas macroeconômicas deste ano têm reduzido o ímpeto dos empresários. “Há um potencial de freio no setor. E, embora a escassez de mão de obra esteja relacionada a esse movimento, seus efeitos não são imediatos – podem levar até cinco anos, prazo médio de execução de uma obra”, explica.

Estefan complementa que os empreendimentos de médio padrão são os mais afetados. “Para esse segmento, o juro inibe o crédito, resultando em menor número de lançamentos e vendas”, detalha. Já a habitação popular mantém ritmo de crescimento e ajuda a compensar o quadro. Segundo o presidente do Sinduscon-SP, em períodos de maior restrição financeira, o setor depende mais de estímulos fiscais do governo, como a ampliação das linhas de crédito subsidiados para projetos sociais.

Ana Maria Castelo, coordenadora de Projetos da Construção no Ibre, complementa que a construção tem um ciclo produtivo próprio, no qual vendas realizadas há três anos influenciam o ritmo atual da atividade. “Houve um achatamento nas vendas nesse período, o que agora se reflete em menor ritmo de obras. O adiamento de projetos ocorre em função de uma conjuntura econômica mais difícil”, detalha.

Castelo reforça que a composição interna das atividades da construção também influencia no ritmo da atividade. São três grandes grupos – infraestrutura, edificações e serviços especializados. Este último inclui parte das empresas terceirizadas que executam pintura, instalação e acabamento. “São segmentos muito intensivos em mão de obra, e a principal demandante é a própria construção civil”, explica.

De acordo com Castelo, no consolidado do ano, os serviços especializados apresentaram retração de 25% e, em infraestrutura, o recuo foi de quase 19%.

Hoje, a construção civil emprega cerca de 3 milhões de trabalhadores com carteira assinada no país, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Um deles é Valderi Cardoso, gerente de mão de obra em uma construtora, que pensa que a desaceleração do segmento poderia ser ainda mais intensa se não fossem as evoluções dentro dos canteiros de obra – como a implantação de cantinas para os operários, assistência em segurança e saúde e cursos de capacitação. Os salários, acima do mínimo nacional, também tornam o setor mais competitivo em relação a serviços e comércio, lembra.

Cardoso, por exemplo, ganha mais de R$ 10 mil ao mês, mas, além do trabalho formal, mantém uma empresa prestadora de serviços e consegue de lucro líquido mensal de cerca de R$ 40 mil, bem acima do que o setor paga.

Ainda assim, Cardoso atribui a saída de trabalhadores da construção para a indústria devido a benefícios sociais, como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e a contribuição para a Previdência Social. “É preciso resolver um problema na construção, que é o pagamento por produtividade, que faz com que o operário busque outro posto e não se imagine em uma carreira de longo prazo no setor”, afirma.

Segundo o profissional, a modalidade funciona como um bônus por produção, semelhante a uma hora extra ou gratificação, pago a profissionais que cumprem metas por metro quadrado. Porém, o valor é “extrafolha” e não integra o cálculo do FGTS nem das contribuições previdenciárias.

Além disso, os pedidos de demissão cresceram em agosto, o que sinaliza maior atratividade em outros setores. O levantamento do Ibre mostram que as demissões na construção civil cresceram mais que as admissões em 12 meses (de agosto de 2024 a agosto de 2025): desligamentos subiram 5,8% contra alta de apenas 3% nas contratações, o que afeta diretamente o saldo de vagas formais.

Entre as demissões no período anual, 61% ocorreram sem justa causa, bem acima da média de 43% dos demais setores. O impacto aumenta entre trabalhadores com ensino médio completo ou superior incompleto, cuja saída subiu 6,6%, e também entre os com ensino superior completo, com aumento de 9,2%.

Diante do cenário, Michelon vê um alerta para a revisão das regras trabalhistas. “O emprego formal se tornou excessivamente burocrático. Uma agenda de reforma é um caminho possível para modernizar o setor e dar mais fôlego às empresas”, conclui.

Feijó acredita que o próximo trimestre deve trazer segurar o emprego com aumento do comércio e serviços, impulsionado pelas festas de fim de ano. Para o primeiro semestre de 2026, ano eleitoral, a expectativa é de maior demanda e novas entregas de obras.

Ela também aposta em uma redução gradual dos juros e nos efeitos das políticas habitacionais – como o Minha Casa, Minha Vida e programas de reforma (ver Programa de reforma mira cidades com mais de 300 mil) – para reaquecer o setor. Ainda assim, o ritmo deve seguir moderado, diante do desafio de qualificar e reter trabalhadores.

Fonte: Valor Econômico — Por Isadora Camargo — De São Paulo, 21/10/2025

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