Inflação da construção dobra em 12 meses e põe empresas em ‘quase alerta’

Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), indicador calculado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) que mede a inflação do setor, avançou 0,71% em janeiro, uma aceleração ante o 0,51% de dezembro de 2024. No acumulado dos últimos 12 meses, a variação é de 6,85%, mais do que o dobro dos 3,23% captados em janeiro do ano passado.

O indicador tem apresentado oscilação positiva e coloca construtoras e incorporadoras em estado de alerta. A memória dos 17% ao ano atingidos em meio à pandemia ainda é recente.

André Czitrom, CEO da incorporadora Magik JC, que constrói principalmente habitação econômica no centro de São Paulo, lembra que a companhia criou uma “sala de guerra” específica para discutir INCC naqueles meses. Por enquanto, a medida não precisou ser adotada, e o estado é de “quase alerta”.

Empresas do segmento econômico, como aquelas que constroem no Minha Casa, Minha Vida (MCMV), têm menos espaço para acomodar variações de custo de obra, porque há um teto para o preço da unidade (de R$ 350 mil) e seus clientes não têm capacidade de pagamento para encarar grandes reajustes.

“Não temos condição de absorver um aumento muito grande dos insumos, no momento”, afirma Pedro Donadon, CEO da incorporadora ADN, que também faz habitação popular, mas no interior paulista. “Se as indústrias [de insumos] forem por esse caminho, não vai ser o melhor para elas, porque terão diminuição da demanda”, diz.

Por enquanto, o aumento tem sido mais forte nos custos relacionados à mão de obra. O INCC é dividido entre mão de obra e materiais, equipamentos e serviços. O primeiro grupo teve alta de 1,13% em janeiro, ante 0,53% em dezembro.

Em relatório publicado nesta semana, os analistas de “real estate” do Santander explicam que esse aumento está relacionado a acordos coletivos das categorias da construção, e Belo Horizonte foi a cidade, dentre as analisadas pelo INCC, com o maior avanço no custo.

O grupo de materiais, equipamentos e serviços variou 0,42% em janeiro, uma desaceleração ante os 0,49% de dezembro.

A Magik JC trabalha com a previsão de que o indicador geral vai ficar perto de 8% no acumulado do ano, conta Czitrom. Para eles, isso já é ruim para os clientes e para o próprio negócio. “Um patamar saudável seria de 4% a 5,5%”, afirma. A empresa não prevê, porém, uma “estilingada” do indicador, uma alta abrupta como a vista na pandemia.

O aumento do custo de construção também é um alerta para as incorporadoras e construtoras de médio padrão. O cliente dessas empresas também não consegue suportar grandes aumentos de preço nas unidades, ainda mais porque o financiamento imobiliário está mais caro — os bancos estão elevando a taxa desse crédito.

Conseguir ser racional nos projetos e escolher os mais rentáveis será fator decisivo para não perder margem, diante do INCC em alta.

Para os analistas do Santander, a visão a respeito da capacidade dessas empresas de ao menos manterem suas margens brutas atuais ainda é “construtiva”. Algumas companhias, afirmam, têm espaço para subir preços dentro do MCMV, e o programa tem conseguido manter o poder de compra dos clientes.

Além disso, quem se planejou pode ter uma gordura para queimar, fruto do INCC abaixo do projetado em 2023. Naquele ano, o acumulado foi de 3,3%, comparável a uma previsão de 4,5% a 6,5%, já contabilizada nos orçamentos das empresas.

Fonte: Valor Econômico – Por Ana Luiza Tieghi, Valor — São Paulo, 03/02/2025

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