Quase metade das construtoras já adota a industrialização em alguma etapa da construção, mas a utilização de processos mais modernos está presente em apenas 15,7% das obras do setor, um aumento de quase um ponto percentual em relação aos 14,8% detectado em junho do ano passado. Essa é uma das constatações observadas no novo Índice Geral de Industrialização da Construção (Igic), que será lançado nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre).
Em junho deste ano, 33,6% das empresas declararam utilizar sistemas industrializados em suas obras e 14,6% afirmaram utilizá-los em parte das obras, o que totaliza 48,2% de empresas com algum grau de adoção, segundo dados que o Valor teve acesso com exclusividade. Contudo, a combinação dos dois subíndices que compõem o Igic, um de adoção e outro de intensidade, apontam que somente 15,7% das obras podem ser incluídas como “industrializadas”.
Conforme explica a coordenadora de projetos de construção do FGV Ibre, Ana Castelo, para que uma obra possa ser considerada parcialmente ou completamente industrializada, é preciso haver a utilização de sistemas construtivos como estruturas pré-fabricadas – paredes de concreto que chegam prontas ao canteiro de obra, steel frame, drywall, kits hidráulicos pré-prontos e outros elementos fabricados previamente, por exemplo.
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“Há várias etapas. A utilização parcial envolve uma ou algumas fases da obra até o limite de ter toda uma edificação pré-fabricada e montada no destino final. O uso desses sistemas está crescendo no Brasil e agora teremos um índice para acompanhar esse desenvolvimento”, comenta Castelo. De acordo com a especialista, as atualizações do Igic serão feitas anualmente.
Embora a falta de parâmetros anteriores dentro do Brasil e até mesmo de índices em outros países relacionados à construção industrializada dificulte a análise para saber se o estágio de utilização no Brasil está satisfatório ou insatisfatório, Castelo observa que a adoção de sistemas construtivos mais modernos ainda tem muito espaço para crescer no país e o Igic ajudará a detectar se a reforma tributária ajudará a impulsionar a modernização do setor, o que tende a elevar a produtividade em uma atividade historicamente artesanal e com baixos índices de produtividade no país.
Castelo explica que há uma assimetria fiscal histórica que travou o crescimento da construção industrializada no Brasil nas últimas décadas. Isso porque a construção convencional no canteiro é tributada predominantemente como serviço (ISS). Por outro lado, ao fabricar painéis de steel frame ou paredes de concreto em fábricas para levar à obra, por exemplo, são incluídos no custo tributos industriais como ICMS e IPI, o que frequentemente encarecia a solução industrializada antes de chegar ao canteiro.
“Se produzir no canteiro, você paga o ISS. Se produzir na fábrica e levar para o canteiro, você vai pagar o ICMS, que é muito mais alto”, diz Castelo. “Agora, o nosso indicador vai acompanhar se essa dinâmica mudará com a reforma tributária”, acrescenta.
Apesar da incerteza que ainda paira sobre se as condições tributárias irão efetivamente contribuir para o crescimento da industrialização do setor, Castelo explica que a escassez da mão de obra é o principal fator que já vem influenciando a disposição das empresas em usar métodos construtivos mais modernos.
Drywall é o produto industrializado que aparece como o mais utilizado nas obras, com 65,8%, aponta indicador
“A construção civil enfrenta uma falta de mão de obra qualificada e um setor mais industrializado precisa de menos mão de obra. Por isso, faz cada vez mais sentido industrializar a construção”, afirma Castelo. “Além disso, são processos modernos que envolvem condições melhores de trabalho e abre espaço, inclusive, para atrair mão de obra feminina e também jovens que não têm se sentido atraídos para trabalhar na construção.”
Diante do cenário, o Igic já identificou que, nas edificações, o drywall é o produto industrializado que aparece como o mais utilizado nas obras, com 65,8%, seguido pela pré-fabricação de concreto, com 61,2%, e pelas estruturas em aço, com 51%. No entanto, são algumas tecnologias ainda menos disseminadas que mostram mudanças mais expressivas. Entre 2025 e 2026, segundo o Igic, o uso de painéis cimentícios ns edificações passou de 18,1% para 34,3% e o uso de steel frame avançou de 15,6% para 32%. A utilização de fachadas pré-fabricadas também cresceu de 12,9% para 28%.
“Os números mostram que a industrialização começa a ganhar espaço dentro das empresas. Há, porém, uma diferença importante entre adotar e industrializar em escala”, pondera Castelo.
Segundo a coordenadora de projetos de construção do FGV Ibre, a industrialização da construção não é apenas uma questão tecnológica. “Está diretamente relacionada a alguns dos principais desafios econômicos do setor: produtividade, disponibilidade e qualificação da mão de obra, custos, prazos de execução e capacidade de ampliar a produção de habitação e infraestrutura.”
Fonte: Valor Econômico — Por Rafael Vazquez — De São Paulo, 11/08/2026