Trilhos de bonde estão aflorando no centro da cidade. Os últimos foram encontrados no final do ano passado embaixo do elevado presidente João Goulart, o Minhocão, na altura da rua Amaral Gurgel, perto da avenida São João. Provavelmente eles pertenciam à linha que conectava o centro à Lapa, desativada na década de 1960.
Quem descobriu os trilhos, fazendo observações nas obras de construção de jardins de chuva no local, iniciadas no ano passado, foi o cientista social e pesquisador Matheus Lima. Ele afirma que a construção prosseguia sem qualquer acompanhamento arqueológico ou preocupação com o patrimônio público. “Os operários trabalhavam normalmente fazendo as escavações, perfurando, removendo artefatos com total desrespeito ao que foi encontrado”, diz.
No dia 15 de janeiro, Lima fez uma denúncia para a prefeitura pelo portal 156 relatando esses fatos. Depois de algum tempo foi aberto um processo administrativo no DPH. Mas ele pôde verificar que já no dia 18 do mesmo mês, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) havia enviado um ofício (253/2026) para a secretaria solicitando a interrupção das obras.
Os órgãos de proteção do patrimônio usam um sistema integrado de informações. Dessa forma, o Iphan soube da denúncia e da sua importância arqueológica. Nesse ofício, o órgão federal tratou de fazer outras exigências para a prefeitura, como a contratação de um profissional arqueólogo e a apresentação de um projeto de engenharia e de um plano para preservar os trilhos.
Os operários continuaram trabalhando durante alguns dias e só pararam um pouco antes do Carnaval. Na sexta-feira (3), o DPH instruiu a Subprefeitura Sé a cumprir as determinações do Iphan. Hoje de manhã (23) não havia trabalhadores no local.
A coluna pediu à Prefeitura de São Paulo um comentário sobre a suposta falta de acompanhamento arqueológico da obra. A Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa, por meio do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), informa que “o processo encontra-se em fase de análise técnica”.
O ofício enviado para prefeitura é assinado por Danilo de Barros Nunes, superintendente do instituto em São Paulo. Na sua argumentação ele indica que deve ser dado aos trilhos do Minhocão o mesmo tratamento dado àqueles implantados no Triângulo Histórico, próximos à esquina da rua Quintino Bocaiuva e entre os números 110 a 134 da rua José Bonifácio.
Já há algum tempo, as obras de restauração dos calçadões do centro revelaram trilhos de outra das primeiras linhas de bonde que funcionaram em São Paulo. Ela ligava o largo São Bento a bairros como o Brás e a Penha, passando pelo parque Dom Pedro 2o. A descoberta foi feita entre a praça Padre Manoel da Nóbrega e a rua 15 de Novembro. O local foi convertido em um sítio arqueológico.
A primeira linha movida a eletricidade conectava o largo São Bento à Barra Funda, passando pela avenida São João. Junto com ela entraram em funcionamento outras oito linhas, com um total de 24 km de trilhos e 25 veículos. Cada um deles tinha capacidade para carregar 45 passageiros sentados, mas esse número chegava a 70, com gente de pé e em cima dos estribos. No seu primeiro ano de operação, transportaram 3,4 milhões de passageiros.
Os bondes elétricos começaram a operar na cidade em 1900 por iniciativa da companhia canadense São Paulo Tramway, Light & Power, a Light. Eles substituíram os modelos de tração animal, que circularam a partir de 1872. Os veículos movidos a eletricidade passaram a ser desativados na década de 1940 e a última linha fazia o trajeto entre o Instituto Biológico, na Vila Mariana, e Santo Amaro. Sua derradeira viagem foi em março de 1968.
Fonte: Folha de S.Paulo — Por Vicente Vilardaga — De São Paulo, 23/02/2026