O desenvolvimento da infraestrutura no Brasil exige a superação de desafios estruturais e a consolidação de condições capazes de atrair e sustentar investimentos de longo prazo. O setor precisa de segurança jurídica, previsibilidade regulatória, fontes de financiamento, qualificação profissional, inovação e responsabilidade ambiental.
Segundo a Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib), os investimentos em infraestrutura no Brasil devem alcançar R$ 300 bilhões neste ano, ante cerca de R$ 280 bilhões em 2025, dos quais 83% vieram de recursos privados. O dado reforça que o capital privado já é parte essencial da expansão da infraestrutura brasileira e terá papel ainda maior nos próximos anos.
O primeiro pilar a ser superado é a segurança jurídica e a previsibilidade regulatória. Agências reguladoras autônomas e técnicas, com estrutura e recursos adequados, são fundamentais para garantir estabilidade às regras contratuais e segurança aos diferentes atores envolvidos nos projetos. Investimentos em infraestrutura têm horizontes de longo prazo e atravessam diferentes ciclos políticos. As iniciativas estão além dos planos de governo: quanto maior a previsibilidade, maior a capacidade de o país atrair capital e transformar projetos em obras.
Também é necessário ampliar e diversificar as fontes de financiamento de longo prazo. Instrumentos como as debêntures incentivadas contribuem para aumentar a capacidade de investimento e viabilizar empreendimentos de alta intensidade de capital, especialmente em um cenário de custos financeiros elevados.
Transporte, logística e saneamento básico estão entre os setores que mais demandam recursos e que podem gerar impactos diretos sobre a competitividade e a qualidade de vida da população. Nesse contexto, o aprimoramento contínuo das concessões e das parcerias público-privadas (PPPs) é estratégico. Esses modelos permitem combinar a capacidade de investimento, gestão e inovação do setor privado com o planejamento e as prioridades do poder público.
Mas infraestrutura não se constrói apenas com capital, é preciso investir em pessoas. Projetos cada vez mais complexos exigem profissionais qualificados para planejar, executar, operar e manter suas estruturas. A inovação tecnológica e a engenharia de ponta completam esse processo.
Modelagem BIM (Building Information Modeling, ou Modelagem da Informação da Construção) , automação de processos construtivos, monitoramento preventivo de condições do solo e sistemas avançados de segurança são exemplos de ferramentas que podem elevar a produtividade, reduzir riscos e tornar os projetos mais eficientes e resilientes. Mais do que incorporar tecnologia, o desafio é utilizá-la para tomar decisões melhores e antecipar desafios.
Por fim, responsabilidade ambiental e transição energética precisam fazer parte da concepção dos novos projetos. Práticas de descarbonização, como o uso de biocombustíveis, equipamentos mais eficientes e frotas de menor impacto nos canteiros de obras, mostram que expansão da infraestrutura e sustentabilidade podem caminhar juntas.
O Brasil tem diante de si uma oportunidade concreta de transformar infraestrutura em uma agenda permanente de desenvolvimento. A Infraestrutura é, essencialmente, uma decisão sobre o futuro. Cada projeto entregue hoje cria condições para uma economia mais produtiva, cidades mais conectadas e uma sociedade com acesso a melhores serviços, inclusive fora das grandes capitais, e o Brasil tem uma janela de oportunidade para avançar nessa agenda.
Fonte: Folha de S.Paulo — Por André De Angelo — 22/09/2026