Guerra puxa alta dos preços do material de construção

A guerra no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, já começa a pressionar os custos da construção civil e pode elevar o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) em 3,89 pontos percentuais em 2026, fazendo o indicador atingir 9,72% neste ano, segundo a FGV Ibre.

Inicialmente, o tamanho do impacto dependeria da duração do conflito e da intensidade dos efeitos sobre as cadeias globais. Na prática, porém, o choque foi forte o suficiente para tornar inevitável o repasse de custos, que já começa a aparecer no setor, destaca o estudo. A análise é dos economistas Ana Maria Castelo, André Braz e Matheus Dias.

Há aumento nos preços de materiais, transporte e insumos petroquímicos. O levantamento ouviu fabricantes de insumos industriais para a construção e identificou reajustes disseminados entre fevereiro e março, com início de vigência em abril, além de novos aumentos previstos para maio.

Para os economistas, a guerra também altera o principal vetor de custos da construção: “Se, até recentemente, a dinâmica era predominantemente explicada pela mão de obra, o atual cenário recoloca os materiais no centro da inflação setorial, ampliando os riscos de aceleração do INCC no curto e médio prazos”, afirmam.

O aumento ainda pode atingir programas como o Minha Casa, Minha Vida e o Casa Brasil, explica a economista Ana Maria Castelo. O motivo é a elevação de custos não previstos em negócios que já têm contratos fechados e preços estabelecidos, o que pode gerar risco de prejuízo para as construtoras, afirma.

No grupo de minerais não metálicos, que inclui produtos à base de cimento e concreto, o impacto será próximo de 1,34 ponto percentual no índice. Com baixa possibilidade de substituição, especialmente em obras de infraestrutura, há maior chance de repasse integral dos custos, o que reduz a margem de ajuste das construtoras. O setor também sofre forte dependência de diesel e derivados de petróleo como aditivos e coque, usados na produção e transporte.

Materiais plásticos e derivados de PVC também estão entre os mais sensíveis, por terem base petroquímica. Insumos como polietileno e resinas de PVC são diretamente ligados às cadeias de petróleo e gás, o que amplia a exposição à volatilidade internacional.

Antes mesmo da guerra, esses produtos já acumulavam altas expressivas, como no caso dos tubos de PVC, que registravam aumento de 16,29% em 12 meses até fevereiro. Com o conflito, os reajustes podem chegar a 35%, especialmente em tubos e conexões. No INCC, o impacto pode atingir até 1,11 ponto percentual.

Tintas e produtos químicos têm impacto potencial estimado em 0,31 ponto percentual sobre o INCC. Como são utilizados nas etapas finais das obras, o efeito tende a ser defasado, atingindo projetos já em andamento. O aumento decorre do encarecimento de insumos petroquímicos, como solventes e resinas, além da alta nos custos logísticos. Os reajustes projetados giram em torno de 10%.

Nos metálicos, o impacto potencial é de 0,96 ponto percentual no INCC. O destaque são vergalhões e arames de aço, com reajuste estimado de 13%. O peso desses produtos é de 5,30% do índice.

Aumento deve impactar mais os insumos com maior exposição ao mercado internacional”
— Yorki Estefan

Segundo o estudo, o comportamento desse grupo difere dos demais. Os preços dependem mais da dinâmica industrial chinesa e da demanda global. Nesse caso, o conflito atua mais como “fator amplificador” do que como causa principal.

No segmento de revestimentos, as placas cerâmicas têm reajuste projetado de 12%, com impacto estimado de 0,17 ponto percentual sobre o INCC. A produção cerâmica utiliza gás natural nos fornos de queima, o que torna o setor sensível a choques energéticos.

Além disso, parte dos insumos usados em esmaltes e pigmentos depende de cadeias globais afetadas pela instabilidade recente. Mesmo com impacto menor, os reajustes tendem a se espalhar ao longo da cadeia devido ao uso amplo desses materiais.

O Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) também já percebe o aumento do material de construção, segundo o presidente Yorki Estefan. Ele destaca que o avanço já se refletiu inclusive no INCC de abril, divulgado nesta segunda-feira (27), que teve alta de 1,04%, após variação de 0,36% em março.

Estefan avalia que o aumento deve impactar mais os insumos com maior exposição ao mercado internacional. Para as construtoras, o efeito imediato é a recomposição dos custos das obras, com pressão adicional sobre as margens, sobretudo em contratos de longo prazo, segundo ele. O presidente também destaca que, dependendo da persistência do cenário, pode haver revisão de cronogramas, postergação de lançamentos e maior seletividade nos investimentos.

“No caso do Minha Casa, Minha Vida, o impacto tende a ser mais sensível. Por operar com margens mais ajustadas e parâmetros definidos, a elevação dos custos pode afetar a viabilidade econômica de novos projetos e reduzir o ritmo de produção. Isso pode demandar ajustes operacionais e, eventualmente, aperfeiçoamentos no programa para preservar sua capacidade de entrega”, afirma Estefan.

Fonte: Valor Econômico — Por Grace Vasconcelos — De São Paulo, 28/04/2026

plugins premium WordPress